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terça-feira, 1 de março de 2011

Skate no Centro: Paulista e Anhangabaú

Provavelmente você já passou por isso: são 19 horas de uma sexta-feira na Avenida Paulista e você, ao sair do trabalho, dá de cara com vários jovens de várias origens que, aproveitando um lado vazio da calçada, deslizam de skate sobre as bordas dos diversos canteiros que ali existem; totalmente alheios ao barulho dos carros ou ao caos que os rodeia. Ou então, imagine que é domingo de manhã, e enquanto São Paulo descansa, lá estão os mesmos jovens se arremessando dos estreitos degraus do Vale do Anhangabaú, arriscando as manobras mais complicadas em cima daquela pequena prancha com rodas. O que as duas cenas têm em comum? Além dos tombos, risadas e skates (e, eventualmente, membros) quebrados, estas cenas são a demonstração mais legítima do grande esporte que o skateboarding se tornou em São Paulo.

Desde o seu surgimento na década de 1970, o skate sempre esteve fortemente ligado à rua. O esporte surgiu na Califórnia, EUA, da iniciativa de surfistas locais. Decepcionados com o mar calmo e aproveitando uma grande seca na região, alguns deles resolveram adaptar rodinhas e eixos de patins em versões menores de suas pranchas, dando assim início ao “sidewalk surf” (surf de calçada). De lá para cá, o skate evoluiu muito e passou por piscinas, rampas verticais, pistas específicas e até manobras puramente de solo, mas nunca abandonou seu local de nascença, que é a rua e suas infinitas possibilidades.

Nose Manual nos degraus do Anhangabaú: cada espaço é útil

Se até os anos 90 o destaque estava nas rampas e pistas, atualmente existe uma forte tendência de retorno à rua, aproveitando ao máximo a arquitetura urbana e a criatividade para a realização de manobras. É neste momento que o Brasil – mais especificamente São Paulo - entra com tudo. Agora, e mais do que nunca, a cidade tem se tornado um grande celeiro para novos talentos de todos os níveis por dois fatores primordiais: a arquitetura propícia do centro da cidade e a falta de infraestrutura para a prática do esporte nas regiões mais afastadas, como explica Bruno Gambaro, que vem da região do Tatuapé para andar de skate na Avenida Paulista: “A sacada de andar na rua é justamente a liberdade que você tem. As pistas são lotadas e sempre tem alguém que acaba te atrapalhando”.

Devido a essa deficiência, os praticantes do subúrbio e da periferia são naturalmente impelidos a se deslocar para o centro e fazer uso dos obstáculos naturais da cidade, transformando alguns pontos em verdadeiras mecas. Lugares como a Avenida Paulista, o Vale do Anhangabaú e a agora demolida Praça Roosevelt já estão gravados na memória do skate paulistano, ganhando inclusive projeção internacional em vídeos e nas histórias daqueles que nestes lugares deram o primeiro pulo. Mas longe da fama. Longe das grandes pistas e dos grandes nomes. Vamos ver como se anda de skate nos principais cartões postais de São Paulo: a Avenida Paulista e o Vale do Anhangabaú.

Avenida Paulista

Quem visse as calçadas da Avenida há cerca de três anos jamais poderia imaginar o sucesso que o local faria entre skatistas de todos os cantos da cidade. Tudo começou a mudar no momento em que o calçamento de pedra portuguesa foi trocado pelo perfeito concreto liso. Se os pedestres gostaram, skatistas de todas as idades e experiências gostaram mais ainda de finalmente terem a chance de explorar vários pontos da avenida, como comenta Bruno Correa, residente da Zona leste: “Aqui tem bordinha, tem escada, chão liso e os parceiros que a gente encontra andando aqui, coisa que é difícil de encontrar em outro canto” completa Bruno, deixando evidente que o lugar já se tornou ponto de encontro – para desespero dos transeúntes.

Um chão liso abre inumeras possibilidades de manobras, como este Fs. Flip

Skatistas são vistos por toda a Paulista, desde a Praça Oswaldo Cruz no paraíso, passando pela calçada do Hospital Santa Catarina até a Praça do Ciclista no cruzamento com a Rua da Consolação. Porém, o local (ou “pico”) mais famoso fica na esquina da Paulista com a Alameda Ministro Rocha Azevedo, seja aproveitando os canteiros e o pequeno hidrante na frente do prédio da Caixa Econômica; a parede de granito na frente do Banco Central do outro lado da rua ou a larga e guarnecida calçada de ambos, como relata comenta Murilo Pimentel, de 18 anos: "A verdadeira atração desse lugar são as bordas dos canteiros. Elas são realmente muito extensas”.

Um belo Wallride no Banco Central: o segredo é aproveitar o que a arquitetura oferece

Mas nem tudo é perfeito, como diz Dhiego Correa, de Porto Alegre: “Sempre existe algum problema com buracos, com espaço e com a segurança, já que a polícia é muito ignorante”. Já se tornaram frequentes atritos entre transeuntes e skatistas na região, como evidencia Antonio Alves, comerciante da região: “Se um brinquedo desses atinge alguém aí na rua como é que fica?”A questão do skate na Paulista ainda é algo que vai render muita discussão, mas será difícil afastar os skatistas de lá, como acrescenta Diogo Carrano, de 18 anos: “O chão da Paulista é perfeito demais. É algo que ajuda a tirar a molecada da droga. Podem até conseguir proibir o skate, mas isso não vai parar ninguém de andar”.

Transeuntes e skatistas: uma relação conturbada

Vale do Anhangabaú

Agora a coisa fica verdadeiramente hardcore. Se a Paulista é um equivalente aos grandes picos europeus e atraente para todos os skatistas de todos os níveis, o constante cheiro de lixo (e outras coisas mais nojentas) e o grande número de skates quebrados revelam agora um lugar bem menos amistoso. As únicas porções praticáveis do Vale do Anhangabaú são os degraus localizados logo abaixo do Viaduto do Chá e um ou outro banco, já que a maioria do chão é recoberto de pedra portuguesa. Por ser de fácil acesso e exigir um nível técnico maior, o Vale do Anhangabaú goza de grande popularidade entre os praticantes; porém, não entre todos. Os degraus servem de abrigo para toda sorte de mendigos e viciados, e os skatistas dificilmente andam sozinhos no Vale por questão de segurança pessoal.

360 flip no Anhangabaú. piso irregular e degraus altos exigem muito mais do praticante

Por estas e outras tantas razões, o Vale conquistou o respeito e a admiração dos praticantes por seu alto nível de dificuldade técnica; dificuldade esta que já projetou skatistas brasileiros a nível internacional e já chamou a atenção de vários praticantes de fora do Brasil. “A borda é esfarelada, alta, o degrau é apertado e o chão não é totalmente liso, e é por isso mesmo que não é qualquer um que consegue andar aqui” diz Marcelo “Formiguinha” Amador, ele mesmo uma das “crias do Vale” e skatista profissional. “Nem skatista gringo anda nas ‘trilha de rato’ que a gente anda aqui”, resume.

Fs. Shovit: Da adversidade que aflora a criatividade

Independente da imagem do skatista maconheiro, independente das dificuldades de se desbravar novos picos, é em lugares assim que a revolução do skate nacional gira. Longe do MacBa em Barcelona, longe do Love Park nos EUA, é na dificuldade dos picos de rua que surgem os melhores expoentes. E, em matéria de picos de rua, estamos bem servidos.