Desde o seu surgimento na década de 1970, o skate sempre esteve fortemente ligado à rua. O esporte surgiu na Califórnia, EUA, da iniciativa de surfistas locais. Decepcionados com o mar calmo e aproveitando uma grande seca na região, alguns deles resolveram adaptar rodinhas e eixos de patins em versões menores de suas pranchas, dando assim início ao “sidewalk surf” (surf de calçada). De lá para cá, o skate evoluiu muito e passou por piscinas, rampas verticais, pistas específicas e até manobras puramente de solo, mas nunca abandonou seu local de nascença, que é a rua e suas infinitas possibilidades.
Nose Manual nos degraus do Anhangabaú: cada espaço é útilSe até os anos 90 o destaque estava nas rampas e pistas, atualmente existe uma forte tendência de retorno à rua, aproveitando ao máximo a arquitetura urbana e a criatividade para a realização de manobras. É neste momento que o Brasil – mais especificamente São Paulo - entra com tudo. Agora, e mais do que nunca, a cidade tem se tornado um grande celeiro para novos talentos de todos os níveis por dois fatores primordiais: a arquitetura propícia do centro da cidade e a falta de infraestrutura para a prática do esporte nas regiões mais afastadas, como explica Bruno Gambaro, que vem da região do Tatuapé para andar de skate na Avenida Paulista: “A sacada de andar na rua é justamente a liberdade que você tem. As pistas são lotadas e sempre tem alguém que acaba te atrapalhando”.
Devido a essa deficiência, os praticantes do subúrbio e da periferia são naturalmente impelidos a se deslocar para o centro e fazer uso dos obstáculos naturais da cidade, transformando alguns pontos em verdadeiras mecas. Lugares como a Avenida Paulista, o Vale do Anhangabaú e a agora demolida Praça Roosevelt já estão gravados na memória do skate paulistano, ganhando inclusive projeção internacional em vídeos e nas histórias daqueles que nestes lugares deram o primeiro pulo. Mas longe da fama. Longe das grandes pistas e dos grandes nomes. Vamos ver como se anda de skate nos principais cartões postais de São Paulo: a Avenida Paulista e o Vale do Anhangabaú.
Avenida Paulista
Quem visse as calçadas da Avenida há cerca de três anos jamais poderia imaginar o sucesso que o local faria entre skatistas de todos os cantos da cidade. Tudo começou a mudar no momento em que o calçamento de pedra portuguesa foi trocado pelo perfeito concreto liso. Se os pedestres gostaram, skatistas de todas as idades e experiências gostaram mais ainda de finalmente terem a chance de explorar vários pontos da avenida, como comenta Bruno Correa, residente da Zona leste: “Aqui tem bordinha, tem escada, chão liso e os parceiros que a gente encontra andando aqui, coisa que é difícil de encontrar em outro canto” completa Bruno, deixando evidente que o lugar já se tornou ponto de encontro – para desespero dos transeúntes.
Um chão liso abre inumeras possibilidades de manobras, como este Fs. Flip
Skatistas são vistos por toda a Paulista, desde a Praça Oswaldo Cruz no paraíso, passando pela calçada do Hospital Santa Catarina até a Praça do Ciclista no cruzamento com a Rua da Consolação. Porém, o local (ou “pico”) mais famoso fica na esquina da Paulista com a Alameda Ministro Rocha Azevedo, seja aproveitando os canteiros e o pequeno hidrante na frente do prédio da Caixa Econômica; a parede de granito na frente do Banco Central do outro lado da rua ou a larga e guarnecida calçada de ambos, como relata comenta Murilo Pimentel, de 18 anos: "A verdadeira atração desse lugar são as bordas dos canteiros. Elas são realmente muito extensas”.
Um belo Wallride no Banco Central: o segredo é aproveitar o que a arquitetura oferece
Mas nem tudo é perfeito, como diz Dhiego Correa, de Porto Alegre: “Sempre existe algum problema com buracos, com espaço e com a segurança, já que a polícia é muito ignorante”. Já se tornaram frequentes atritos entre transeuntes e skatistas na região, como evidencia Antonio Alves, comerciante da região: “Se um brinquedo desses atinge alguém aí na rua como é que fica?”A questão do skate na Paulista ainda é algo que vai render muita discussão, mas será difícil afastar os skatistas de lá, como acrescenta Diogo Carrano, de 18 anos: “O chão da Paulista é perfeito demais. É algo que ajuda a tirar a molecada da droga. Podem até conseguir proibir o skate, mas isso não vai parar ninguém de andar”.
Transeuntes e skatistas: uma relação conturbada
Vale do Anhangabaú
Agora a coisa fica verdadeiramente hardcore. Se a Paulista é um equivalente aos grandes picos europeus e atraente para todos os skatistas de todos os níveis, o constante cheiro de lixo (e outras coisas mais nojentas) e o grande número de skates quebrados revelam agora um lugar bem menos amistoso. As únicas porções praticáveis do Vale do Anhangabaú são os degraus localizados logo abaixo do Viaduto do Chá e um ou outro banco, já que a maioria do chão é recoberto de pedra portuguesa. Por ser de fácil acesso e exigir um nível técnico maior, o Vale do Anhangabaú goza de grande popularidade entre os praticantes; porém, não entre todos. Os degraus servem de abrigo para toda sorte de mendigos e viciados, e os skatistas dificilmente andam sozinhos no Vale por questão de segurança pessoal.
360 flip no Anhangabaú. piso irregular e degraus altos exigem muito mais do praticante
Por estas e outras tantas razões, o Vale conquistou o respeito e a admiração dos praticantes por seu alto nível de dificuldade técnica; dificuldade esta que já projetou skatistas brasileiros a nível internacional e já chamou a atenção de vários praticantes de fora do Brasil. “A borda é esfarelada, alta, o degrau é apertado e o chão não é totalmente liso, e é por isso mesmo que não é qualquer um que consegue andar aqui” diz Marcelo “Formiguinha” Amador, ele mesmo uma das “crias do Vale” e skatista profissional. “Nem skatista gringo anda nas ‘trilha de rato’ que a gente anda aqui”, resume.
Fs. Shovit: Da adversidade que aflora a criatividade
Independente da imagem do skatista maconheiro, independente das dificuldades de se desbravar novos picos, é em lugares assim que a revolução do skate nacional gira. Longe do MacBa em Barcelona, longe do Love Park nos EUA, é na dificuldade dos picos de rua que surgem os melhores expoentes. E, em matéria de picos de rua, estamos bem servidos.
